A revolta dos bonés verdes
Neste último domingo do mês de Setembro e, mesmo ao cair do pano de 30 dias dedicados às pessoas que vivem com demência, escrevo sobre bonés. Verdes.
A cor não é de todo relevante para o tema, mas foi relevante para mim no dia em que me deparei com eles:
Estava há três dias numa “bolha” de bem-estar, dignidade, inovação social com impacto, rodeada de pessoas que cuidavam e eram cuidadas, sem rótulos, sem diagnósticos, sem sintomas, sem infantilização. Onde? Em Viseu, a acompanhar o projeto financiado pela Fundação La Caixa : #ID Memória Futura
Não vou descrever o projeto, podem pesquisar, se assim o desejarem. Hoje escrevo sobre bonés.
Era um dia de muito calor, numa quinta murada, segura, sem carros, e a atividade era assistir a um documentário, um dos produtos finais do projeto já mencionado e com o título : ” Desaio“. O auditório era relativamente pequeno e, como habitualmente em Portugal, sem acessibilidade para quem tem mobilidade reduzida.
Pouco antes da hora marcada para a exibição do documentário, soube que viria um grupo com cerca de 20 pessoas, de uma instituição, fiquei contente.
Saio do auditório e deparo-me com os bonés verdes florescentes. Estavam cerca de 30 pessoas mais velhas estacadas ao sol, todas de bonés verdes florescentes, todos iguais, enterrados na cabeça. Essas 30 pessoas e a Ajudante que os acompanhava, que, para além do boné, trazia uma bata igualzinha às batas que as educadoras usam nos jardins de infância.
Do grupo, apenas a diretora técnica vinha sem boné.
A cena provocou-me uma reação física de repulsa, um enjoo, um soco no estomago, uma desilusão.
Para abreviar toda a cena, salto já para o fim do documentário, houve espaço para questões ( passo essa parte tb) e eu fui ficando com cada vez menos espaço dentro de mim para acomodar a indignação, a angustia …..que os bonés ( ainda) na cabeça das pessoas me estavam a causar.
Pedi a palavra e, entre outras coisas, questionei -os (me) : Porque estão 30 adultos dentro de um auditório a assistir a um documentário com bonés verdes na cabeça? Bonés todos iguais? Porquê? E depois disse : Quem quiser tirar o boné, tire! Aqui podem, é seguro tirar o boné!
O que se seguiu, apanhou-me totalmente desprevenida: Ouviram-se vários : “SIM! EU!” E muitos bonés saltaram da cabeça, senhoras penteavam-se, havia um burburinho na sala….Eu elogiei, eu agradeci por conseguir ver-lhes os rostos, os olhos…..
Terminei, houve uma grande salva de palmas….
As pessoas começaram a levantar-se para saírem, e, de imediato os bonés voltaram à posição inicial : A cabeça de cada um das 30 pessoas.
De que servem os posts no Facebook a falar do dia 21 de Setembro?
De que servem estes dias ou meses? Se nada muda? Se parece que estamos cada vez mais idadistas e as pessoas cada vez mais resignadas e condicionadas?
No fim, tive oportunidade de conversar um pouco com a Diretora Técnica da ERPI. Sinceramente, não senti que nada daquilo lhe disse alguma coisa….quando sugeri formas mais dignas, respondeu-me com a frase chavão: Já sabe como são as instituições.. A seguir perguntei-lhe, e quem é que faz as instituições?