Estratégias de bem-estar para a Pessoa com demência

Hoje, em visita a um novo espaço de um Centro de Dia, recordei um senhor que conheci há uns anos e que frequentava o Centro de Dia que geri:

O senhor, com diagnóstico de demência, era ainda relativamente jovem e frequentava o Centro diariamente. Estava quase sempre muito ansioso e agitado, não participava nas atividades propostas e isolava-se. Tinha uma característica engraçada, quando acabava de almoçar, levava a mão ao bolso para tirar a carteira para pagar a refeição: Nós dizíamos sempre que já estava pago. No entanto percebemos que ele levava a mão ao bolso com muita frequência e não trazia carteira.

Perguntamos à esposa porque não lhe dava a carteira, e a resposta foi a que ouvimos muitas vezes na presença de demência :” Para quê? Já não vale a pena”.

Explicamos que o esposo parecia ansioso e que poderia sentir-se mais seguro se tivesse a carteira com ele.

Quem quer sair sem dinheiro? Sem documentos? E se acontece alguma coisa?

Era esta angustia que o senhor, provavelmente, sentia sempre que procurava a carteira.

Chegou o dia em que a carteira veio e dentro dela estava, para além de algum dinheiro, o cartão de sócio do benfica.

A partir desse dia, o senhor levava a mão ao bolso e a carteira estava lá. Sempre que a tirava e mostrava o cartão se sócio, havia alguém que lhe fazia uma pergunta, alguém do benfica celebrava e alguém de um clube rival ( quem será?) dava-lhe os “pêsames”. Nesses momentos, este senhor, não só se sentia seguro, como se sentia incluído no grupo, e o seu bem-estar aumentou.

É essencial procurar o significado de tudo na vida de uma pessoa com demência, mesmo o de uma simples carteira.